Revista Vila XXI  

Cidadania


O Adolescente e o Mundo

Os trabalhos que levam à conscientização do papel social de cada estudante

Armando Tambelli

A necessidade de colocar nossos alunos em contato com as contradições, os personagens e as antigas e novas formas de organização da sociedade levou a Escola da Vila a desenvolver projetos na área social. Essa necessidade demonstra-se urgente, quando consideramos a rapidez das mudanças e do que acreditamos importante como parte da formação humana, acadêmica e profissional.

Nesse sentido a escola vem propondo projetos de convivência e investigação junto a entidades que realizam trabalhos sociais ou de assistência. De início, promoveram-se encontros com os alunos para se detectarem os temas a ser abordados, selecionando-se entidades que atuam nessas áreas escolhidas e discutindo-se sobre como trabalhar. Pretendendo que o projeto não se resumisse apenas a visitas, mas que estas fossem uma etapa de sensibilização, estabeleceu-se também como objetivo mais permanente a reflexão e construção conjunta de soluções e participação em atividades já existentes, considerando os problemas cotidianos de creches, asilos, moradores de rua, pessoas portadoras de deficiências, etc.

As 8as, por exemplo, visitaram o asilo Santa Tereza, onde foi possível conviver com 100 idosos que não mantinham contato com seus familiares. Os alunos conheceram seus problemas, os problemas de quem cuida deles, a política de assistência a esta idade e, principalmente, como mínimos gestos (como comparecer a uma festa Junina promovida no asilo) têm efeito de valorização para aquelas pessoas.

Ainda nos exemplos, os alunos de 5ª e 8ª séries puderam conhecer e conviver com crianças abandonadas portadoras de hidrocefalia. Trata-se obviamente de uma realidade difícil, porém foi muito interessante observar a capacidade de interação demonstrada por eles.

O que se tem podido perceber é que os alunos da Escola da Vila são sensíveis e preocupados com o que acontece em torno deles e com esses problemas em particular, ainda mais quando se considera que, no Ensino Fundamental, o trabalho é voluntário. Por conta deste aspecto garantiu-se um espaço de troca, interação e participação, com liberdade e responsabilidade com o que se está fazendo. O que se quer evitar, nesse primeiro momento de contato, são lições, conselhos, exortações, explanações logicamente estruturadas, pois cremos que o adolescente afirmará, para si mesmo, valores como solidariedade e autonomia de ação, pelo caminho da prática e vivência dessas dimensões humanas e sociais.

O foco principal, portanto, é a sensibilização para uma participação mais ativa, construtiva e solidária dos nossos alunos na solução de problemas reais na escola, na comunidade e na sociedade.

Já no EM, esta prática mais espontânea dá lugar a formas estruturadas de ação, como contribuição formadora para um olhar mais crítico, tanto nos aspectos teóricos, quanto nas práticas sociais, com seus protagonistas e seus antagonismos. O que se pretende com os projetos é oferecer aos alunos uma melhor condição de leitura e decifração do mundo em que vivem.

Destaca-se, nesta fase, a preocupação em ajudar a refletir, instruindo com relação a uma escolha pessoal e profissional, e a uma forma e caminho para se inserir de maneira socialmente criativa e transformadora. O que se observa é que esta prática é componente obrigatório para o sucesso de um projeto educativo com significado, e para a manutenção da coerência pedagógica da Escola.

Nesse sentido, o que acontece no EF de forma voluntária se reorganiza no EM num rol de estudos e visitas, abrangendo a observação ou convivência com diferentes grupos e instituições, nos seus ambientes e com suas atribuições, práticas e visões. O objetivo é refletir sobre a vivência, a organização e o funcionamento desses grupos, colocados no mais das vezes em situações opostas no espectro social, com funções e significados diferentes, mas fazendo parte da teia de relações da sociedade. O centro desta tarefa pedagógica de inserção é a sistematização e a articulação das experiências e práticas destes personagens e instituições sociais, com a percepção e sensibilização provocadas nos alunos, em grupos e individualmente.


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