Ensinar e avaliar
Sônia Barreira Conseguir implantar um currículo de base construtivista foi uma tarefa árdua para a equipe da Escola da Vila nestes 20 anos de trabalho. Mas foi também um grande desafio para os pais que apostaram numa proposta inovadora e confiaram na seriedade da equipe. Apesar da certeza de que a educação tradicional não poderia mais responder adequadamente às novas necessidades de formação, os pais de nossos alunos ficaram naturalmente inseguros em alguns momentos deste processo. Não foi, e não é ainda, muito fácil para quem viveu um outro modelo de escola reconhecer como legítimas as modificações curriculares que introduzimos. As transformações na forma de abordar os conteúdos e na ordem de ensiná-los foram aceitas progressivamente pela comunidade de pais e também pela comunidade educacional. No início parecia apenas que os alunos aprendiam o mesmo que em outras escolas, mas de outra forma e em outros momentos. No entanto, não tardou para que descobríssemos todos que, em se tratando de DIDÁTICA, forma é conteúdo. Isto é, quando a maneira de se ensinar sofre modificações, inevitavelmente o conteúdo a ser ensinado também muda. Por exemplo: uma coisa é ensinar história apresentando os acontecimentos e explicando relações; outra é trazendo um problema para um debate, que por sua vez gera uma pesquisa sobre determinado tema, promove uma comparação entre vários momentos da história, etc Num modelo, o aluno aprende conceitos e fatos, no outro aprende além disso, a pesquisar, levantar hipóteses e elaborar explicações. Assim, propondo uma transformação bastante radical no programa escolar, a equipe da Escola da Vila provocou polêmicas, dúvidas e muitas inquietações. A elaboração de uma nova proposta curricular não se restringiu a uma ou outra disciplina, foi ampla, geral e irrestrita. Diante de uma proposta tão diferente a pergunta recorrente era: mas e se um aluno sai desta escola no meio do percurso, como se dará sua adaptação em uma escola com o currículo convencional? A equipe, no entanto, estava segura de que implantava mudanças tão necessárias que com o tempo, inevitavelmente outros nos seguiriam. O que não prevíamos era que isso acontecesse tão rapidamente e com o grau de importância que adquiriu. Em 1995 alguns coordenadores e professores que trabalharam na VILA durante muitos anos foram chamados para integrar a equipe que coordenou o processo de elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação Fundamental , no Ministério da Educação. O resultado disso foi que apesar da Escola da Vila não ter nenhuma participação institucional neste processo, a experiência de referência daquele grupo de profissionais foi entre outras, a proposta curricular da Vila, o que certamente se expressa nas propostas divulgadas pelo MEC em todo o país. Assim, o modelo educacional aqui praticado, até então difundido através do nosso Centro de Estudos, passou a ser valorizado pelas propostas oficiais do Ministério da Educação e nos últimos anos passou a ser o paradigma educacional vigente. Com isso, as escolas que sempre praticaram um ensino convencional, se viram obrigadas a atualizar sua prática pedagógica, passaram a trabalhar com projetos, a rever sua didática e modificar seu currículo. Mas o pioneirismo da Escola da Vila não parou aí. Nos últimos 5 anos pudemos avançar naquilo que continua sendo, para muitas escolas, o calcanhar de Aquiles da proposta construtivista: a avaliação. Amiga ou inimiga? - As teorias construtivistas nos mostraram, e nossa prática confirmou, que os alunos não aprendem da mesma forma, nem ao mesmo tempo, e que muitas vezes uma resposta errada numa prova ou avaliação, pode estar expressando o conhecimento acumulado pelo aluno, o esforço de reflexão e raciocínio e não seu fracasso na aprendizagem. Analisando o modelo de avaliação das escolas tradicionais observávamos que não poderíamos, em nossa proposta pedagógica, fazer nada parecido pois as conseqüências não nos pareciam nada formativas. Os alunos aprendiam a burlar a avaliação, a colar , a importar-se mais com a nota do que com a aprendizagem, evitar as recuperações, a fazer comparações competitivas, a excluir e discriminar aqueles que não alcançaram bons resultados. Isso ocorre porque o processo de avaliação dominante - que todos nós conhecemos, baseia-se num sistema seletivo. Ou seja, alguns, que por diversas razões têm maiores condições de aprender, aprendem mais e melhor. Outros, com outras características, que não respondem tão bem a todos os desafios de todas disciplinas, aprendem cada vez menos e são muitas vezes excluídos do processo de escolarização. E atenção: existem muitas formas de exclusão dentro da escola, não apenas a reprovação. A equipe da Vila desde seu início vem dedicando-se a elaboração de mecanismos de avaliação que estejam a favor do processo de aprendizagem dos alunos: que contemple as diferenças entre eles, não valorize a competição, e acima de tudo que ajude a identificar as causas da não aprendizagem. Se o aluno não aprendeu a pergunta mais importante é: porque? Quando se encara o processo de avaliação desta maneira invariavelmente encontramos as causas no ensino e não na aprendizagem. E é esta a maior importância da prática avaliativa: encontrar novos caminhos para favorecer a aprendizagem dos alunos. A maior pressão para que o aluno aprenda, não deve ser o medo da reprovação ou da nota baixa, mas sim o prazer de aprender. Isso não deve ser confundido com ausência de avaliação, ao contrário, é muito importante que o aluno seja avaliado, acompanhe e compreenda esta avaliação. Incentivamos os alunos a buscar a "excelência individual" ou que façam o melhor possível, para cada um deles, e não para responder um padrão definido pela escola. Na medida em que os alunos crescem, inevitavelmente devem enfrentar avaliações seletivas fora da escola, para isso oferecemos um preparo específico durante o Ensino Médio. Somos contrários a idéia de submeter os alunos a uma avaliação perversa em nome de prepará-los para estas situações no futuro. Acreditamos que quanto mais forte o vínculo do aluno com seu processo de aprendizagem, melhores condições terá para seguir aprendendo com autonomia, competência pessoal imprescindível para o futuro próximo.
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