Revista Vila XXI  

Currículo


Ensinar e avaliar

A maior pressão para que o aluno aprenda, não deve ser o medo da reprovação ou da nota baixa, mas sim o prazer de aprender

Sônia Barreira

Conseguir implantar um currículo de base construtivista foi uma tarefa árdua para a equipe da Escola da Vila nestes 20 anos de trabalho. Mas foi também um grande desafio para os pais que apostaram numa proposta inovadora e confiaram na seriedade da equipe.

Apesar da certeza de que a educação tradicional não poderia mais responder adequadamente às novas necessidades de formação, os pais de nossos alunos ficaram naturalmente inseguros em alguns momentos deste processo. Não foi, e não é ainda, muito fácil para quem viveu um outro modelo de escola reconhecer como legítimas as modificações curriculares que introduzimos.

As transformações na forma de abordar os conteúdos e na ordem de ensiná-los foram aceitas progressivamente pela comunidade de pais e também pela comunidade educacional. No início parecia apenas que os alunos aprendiam o mesmo que em outras escolas, mas de outra forma e em outros momentos. No entanto, não tardou para que descobríssemos todos que, em se tratando de DIDÁTICA, forma é conteúdo. Isto é, quando a maneira de se ensinar sofre modificações, inevitavelmente o conteúdo a ser ensinado também muda. Por exemplo: uma coisa é ensinar história apresentando os acontecimentos e explicando relações; outra é trazendo um problema para um debate, que por sua vez gera uma pesquisa sobre determinado tema, promove uma comparação entre vários momentos da história, etc… Num modelo, o aluno aprende conceitos e fatos, no outro aprende além disso, a pesquisar, levantar hipóteses e elaborar explicações.

Assim, propondo uma transformação bastante radical no programa escolar, a equipe da Escola da Vila provocou polêmicas, dúvidas e muitas inquietações. A elaboração de uma nova proposta curricular não se restringiu a uma ou outra disciplina, foi ampla, geral e irrestrita. Diante de uma proposta tão diferente a pergunta recorrente era: mas e se um aluno sai desta escola no meio do percurso, como se dará sua adaptação em uma escola com o currículo convencional?

A equipe, no entanto, estava segura de que implantava mudanças tão necessárias que com o tempo, inevitavelmente outros nos seguiriam. O que não prevíamos era que isso acontecesse tão rapidamente e com o grau de importância que adquiriu.

Em 1995 alguns coordenadores e professores que trabalharam na VILA durante muitos anos foram chamados para integrar a equipe que coordenou o processo de elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação Fundamental , no Ministério da Educação.

O resultado disso foi que apesar da Escola da Vila não ter nenhuma participação institucional neste processo, a experiência de referência daquele grupo de profissionais foi entre outras, a proposta curricular da Vila, o que certamente se expressa nas propostas divulgadas pelo MEC em todo o país. Assim, o modelo educacional aqui praticado, até então difundido através do nosso Centro de Estudos, passou a ser valorizado pelas propostas oficiais do Ministério da Educação e nos últimos anos passou a ser o paradigma educacional vigente. Com isso, as escolas que sempre praticaram um ensino convencional, se viram obrigadas a atualizar sua prática pedagógica, passaram a trabalhar com projetos, a rever sua didática e modificar seu currículo.

Mas o pioneirismo da Escola da Vila não parou aí. Nos últimos 5 anos pudemos avançar naquilo que continua sendo, para muitas escolas, o calcanhar de Aquiles da proposta construtivista: a avaliação.

Amiga ou inimiga? - As teorias construtivistas nos mostraram, e nossa prática confirmou, que os alunos não aprendem da mesma forma, nem ao mesmo tempo, e que muitas vezes uma resposta errada numa prova ou avaliação, pode estar expressando o conhecimento acumulado pelo aluno, o esforço de reflexão e raciocínio e não seu fracasso na aprendizagem.

Analisando o modelo de avaliação das escolas tradicionais observávamos que não poderíamos, em nossa proposta pedagógica, fazer nada parecido pois as conseqüências não nos pareciam nada formativas. Os alunos aprendiam a burlar a avaliação, a colar , a importar-se mais com a nota do que com a aprendizagem, evitar as recuperações, a fazer comparações competitivas, a excluir e discriminar aqueles que não alcançaram bons resultados.

Isso ocorre porque o processo de avaliação dominante - que todos nós conhecemos, baseia-se num sistema seletivo. Ou seja, alguns, que por diversas razões têm maiores condições de aprender, aprendem mais e melhor. Outros, com outras características, que não respondem tão bem a todos os desafios de todas disciplinas, aprendem cada vez menos e são muitas vezes excluídos do processo de escolarização. E atenção: existem muitas formas de exclusão dentro da escola, não apenas a reprovação.

A equipe da Vila desde seu início vem dedicando-se a elaboração de mecanismos de avaliação que estejam a favor do processo de aprendizagem dos alunos: que contemple as diferenças entre eles, não valorize a competição, e acima de tudo que ajude a identificar as causas da não aprendizagem. Se o aluno não aprendeu a pergunta mais importante é: porque? Quando se encara o processo de avaliação desta maneira invariavelmente encontramos as causas no ensino e não na aprendizagem. E é esta a maior importância da prática avaliativa: encontrar novos caminhos para favorecer a aprendizagem dos alunos.

A maior pressão para que o aluno aprenda, não deve ser o medo da reprovação ou da nota baixa, mas sim o prazer de aprender. Isso não deve ser confundido com ausência de avaliação, ao contrário, é muito importante que o aluno seja avaliado, acompanhe e compreenda esta avaliação. Incentivamos os alunos a buscar a "excelência individual" ou que façam o melhor possível, para cada um deles, e não para responder um padrão definido pela escola.

Na medida em que os alunos crescem, inevitavelmente devem enfrentar avaliações seletivas fora da escola, para isso oferecemos um preparo específico durante o Ensino Médio. Somos contrários a idéia de submeter os alunos a uma avaliação perversa em nome de prepará-los para estas situações no futuro. Acreditamos que quanto mais forte o vínculo do aluno com seu processo de aprendizagem, melhores condições terá para seguir aprendendo com autonomia, competência pessoal imprescindível para o futuro próximo.

Como a Avaliação é Comunicada

Educação Infantil: avaliações qualitativas e dossiê mostrando a evolução do aluno

Ciclo 2: boletim apresentando avaliação qualitativa. O professor comenta o processo de cada aluno em relação aos objetivos da série e indica atividades complementares. Há também uma auto avaliação do aluno e um espaço para comentários dos pais.

Ciclo 3: boletim apresentando uma avaliação qualitativa suscinta e atribuição de conceitos (A, B, C, D, E) para cada disciplina.

5ª à 8ª séries: boletim com conceitos por disciplina.

Ensino Médio: boletim com as notas de 1 a 10 em cada disciplina. Média 6,0.

Sistema de Melhoria do Desempenho Escolar

A partir da quinta série, ao final de cada trimestre, há processos de recuperação paralela. Os alunos podem, também, participar de estudos extras, monitorados pelos alunos do último ano do Ensino Médio, no meio de cada trimestre. Com isso, melhoram suas condições de aprendizagem, mas não se altera a nota da avaliação passada. Sendo necessário, a escola também pode reter o aluno na série em que se encontra.


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