Revista Vila XXI  

Educação


Construindo uma Nova Escola

Como foi desenvolvido o projeto pedagógico da Escola da Vila

Zélia Cavalcanti

A Escola da Vila iniciou seus trabalhos em 1980, reunindo 5 classes de Educação Infantil e um Centro de Estudos. Baseada nos conceitos do construtivismo escolar, inovava, desde então, a visão da ação pedagógica considerada, até aquele momento, como possível e adequada às crianças pequenas. Contra a idéia de que as crianças com menos de 6 anos precisavam ser preparadas para a escolaridade do ensino fundamental, através de exercícios motores repetitivos e aprendizagens sem significado real, a Escola da Vila se colocou como divulgadora da idéia de que a escola antes do ensino fundamental já era escola (e não pré-escola), e que nela os alunos podiam ser motivados a aprender muitos conteúdos sociais de forma significativa.

Com isso, durante seus primeiros anos de funcionamento, a Escola da Vila partilhou, com algumas escolas particulares de São Paulo, a idéia de ser experimental e uma alternativa à escolaridade tradicional. Nesse período, a ação educativa realizada se dizia centrada no que era reconhecido como do interesse da criança pequena e necessário ao desenvolvimento da expressão pessoal e da sociabilidade dos alunos. Os conteúdos escolares tradicionais ficavam assim relegados, implicitamente, a um segundo plano. Isso contribuía para que o trabalho não fosse identificado com o das correntes conteudistas.

No entanto, o fato de a equipe da Escola da Vila ser formada por profissionais que acreditavam nas idéias divulgadas pela proposta da Escola Nova (que colocava o aluno no centro do processo de aprendizagem), procurando compreender e integrar a teoria genética de Jean Piaget e reconheciam a importância da visão educacional de Paulo Freire na organização das situações de aprendizagem, contribuiu para que se desenvolvesse, desde os primeiros anos, um trabalho original, voltado para o desenvolvimento integral dos alunos.

A partir de meados dos anos 80, com o início da implantação das séries do 1º grau, a escola adotou a proposta didática que defendia o abandono da prática de alfabetização através das cartilhas e seus textos destituídos de significado social, em troca de um processo de formação de escritores e leitores de textos com sentido e significado sociais.

Foram fundamentais, para o desenvolvimento dessa nova postura didática, a leitura do trabalho de Emilia Ferreiro, "A Psicogênese da Língua Escrita", os grupos de estudos que se seguiram em torno desse trabalho e, posteriormente, muitos outros autores. As supervisões do trabalho feito nas salas de aula, realizadas, inicialmente, por Ana Teberosky e Liliana Tolchisnky (professoras e pesquisadoras do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade de Barcelona), e depois por outros profissionais, sempre dentro de uma visão construtivista, também foram essenciais.

Os avanços realizados no trabalho com a língua escrita levaram à ampliação da visão construtivista, incentivando a procura de trabalhos de pesquisa que apresentassem uma visão psicogenética da construção de conhecimentos relativos a outras disciplinas do currículo. Essa busca levou às contribuições de autores da escola francesa de Didática da Matemática e, depois, aos trabalhos dedicados ao desenvolvimento de didáticas específicas para o ensino e aprendizagem das ciências sociais e experimentais.

Esses novos conhecimentos resultaram na introdução e desenvolvimento de novas práticas de ensino, principalmente na adoção dos Projetos Didáticos, baseados na parceria entre o professor e seus alunos, no sentido social dos conteúdos de aprendizagem escolar, nas relações possíveis entre diferentes disciplinas que compõem o currículo escolar, nos procedimentos que são específicos para o trabalho com cada disciplina, na autonomia possível para o aluno em cada momento de seu percurso escolar e no papel da interação e da cooperação nos processos de aprendizagem.

À medida que esses conhecimentos iam sendo sistematizados, a escola passou a exercer um maior controle das situações de ensino e aprendizagem e iniciou um processo de institucionalização desses saberes, através da elaboração de documentos que organizassem e registrassem o Projeto Curricular da Escola da Vila.

Essas novas condições de trabalho favoreceram o desenvolvimento de um material didático de apoio ao trabalho realizado em classe. Como nossa prática de ensino não incorporava a prática comum entre muitas escolas (de adoção de materiais didáticos produzidos fora do contexto de experiência da escola), a possibilidade de elaboração desse material significou, para a equipe, um momento de reconhecimento da qualidade do conhecimento didático já construído.

Esse momento de constituição do Projeto Pedagógico também criou a possibilidade para um novo e grande investimento: o desenvolvimento de um projeto para o Ensino Médio, coerente com o trabalho já realizado até a 8ª série.

Com a implantação das séries do Ensino Médio, a Escola da Vila finaliza o desenho de um Projeto que se esforça em colocar ao alcance de seus alunos os saberes culturais cuja assimilação, aprendizagem e domínio são fundamentais, para que possam chegar a desenvolver-se como cidadãos com plenitude de direitos e deveres.

Limites Pessoais e Sociais

A Escola da Vila sempre se preocupou com o papel indiscutível da construção de limites pessoais e sociais na educação das crianças. No entanto, nunca confundimos esse aspecto fundamental da construção da autonomia dos alunos com questões de "disciplina escolar". Das classes de educação infantil ao terceiro colegial, entendemos que as atitudes de atenção aos limites de atuação dentro da escola se desenvolvem no processo de construção da identidade de estudante e que, para isso, o papel dos professores e demais adultos responsáveis pelos alunos dentro da escola é fundamental: são eles que educam os alunos para a vida escolar.

Isso, no entanto, não significa dizer que não temos problemas de indisciplina. Nossos alunos também têm, em alguns momentos, atitudes que consideramos inadequadas em sala de aula ou no espaço externo, mas lidar com isso faz parte do trabalho educacional.

Consideramos essencial que a escola estabeleça e faça conhecer a seus alunos e a seus pais ou responsáveis quais limites são inegociáveis, o que não é aceitável no espaço público em que a escola se constitui. Os limites de atuação no ambiente escolar também fazem parte do contrato educacional que se estabelece entre pais, alunos e professores.


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