Revista Vila XXI  

Ensino


Professor Reflexivo

Na Escola da Vila a reflexão crítica e a tematização da prática também fazem parte do processo de formação dos professores

Lucinha Magalhães

Engana-se quem acredita que a formação de um professor termina quando ele recebe seu diploma. O professor precisa ser um curioso, entender como seus alunos aprendem e como atuar para favorecer a aprendizagem. O trabalho em sala de aula depende da prática reflexiva do professor. É ele quem constrói e organiza o conhecimento didático.

A reflexão é hoje um dos conceitos mais utilizados por investigadores, formadores de professores e educadores em geral, para se referirem às novas tendências da formação de professores. Mas esta não é uma idéia inédita. Há uma história por trás disso.

Nas últimas décadas, sobretudo a partir do final dos anos 70, assistimos a uma mudança nos processos de ensino e aprendizagem. A Escola da Vila também fez parte dessa história. Ela surgiu em oposição à prática tradicional de ensino e construiu progressivamente sua identidade, através da elaboração de um projeto educativo que hoje defende o desenvolvimento de uma ação específica, intencional e sistemática junto aos alunos. Contava, desde sua implantação, com dois tipos de registros reflexivos: o diário de classe e o relatório geral do trabalho. A Escola acreditava, já nessa época, na necessidade de contarmos com instrumentos que auxiliem, organizem e orientem nossa ação em sala de aula.

Os professores produziam relatórios para os pais sobre o trabalho e esse era o nosso modo de estudar e ter melhores professores. Em 1991, a Escola elaborou um documento dividido em duas partes: uma feita coletivamente pelos professores da série e uma outra elaborada pelo professor da classe. Esse foi um movimento importante na Escola da Vila ,pois documentou-se coletivamente a prática, o que possibilitou a interação dos professores e de seus saberes.

Em 1992, surgiu uma nova iniciativa igualmente importante. Foram produzidos os Documentos Internos, monografias feitas pelos professores que comunicavam à equipe pedagógica os conhecimentos construídos durante o semestre, instaurando mais um espaço de debate e discussão coletiva sobre a prática.

Instrumentos de reflexão - Na Escola da Vila, pensar sobre o que aconteceu em uma hora da aula sob outro ponto de vista, analisar o que se disse, o que se fez, explicar o que se pretende, pensar os materiais que serão necessários, refletir, compartilhar dúvidas e certezas sempre foram e continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento do nosso trabalho.

Para tanto, a Escola conta com o diário de classe. O diário é um documento reflexivo do professor, uma produção apoiada na prática diária. É um lugar de reflexões, um espaço onde o professor conversa consigo mesmo, anota leituras, revê encaminhamentos, avalia atividades realizadas, documenta o percurso de sua classe. Um documento que reflete a história do grupo e os avanços do próprio professor.

Por constituir-se em um espaço pessoal, não há um modelo único de diário, nem uma única forma de escrever. À medida que o professor avança em relação à reflexão sobre sua prática, vai buscando maneiras mais adequadas e produtivas de refletir sobre ela.

De acordo com Donald Schön, em seu texto "Formar professores como profissionais reflexivos", um professor permite-se ser surpreendido pelo que o aluno faz. No texto, Schön diz: "Um professor reflexivo permite-se ser surpreendido pelo que o aluno faz. Num segundo momento, reflete sobre esse fato, ou seja, pensa sobre aquilo que o aluno disse ou fez e, simultaneamente, procura compreender a razão por que foi compreendido. Depois, num terceiro momento, reformula o problema suscitado pela situação. Num quarto momento, efetua uma experiência para testar a sua nova tarefa e a hipótese que formulou sobre o modo de pensar do aluno. Esse processo de reflexão na ação não exige palavras. Por outro lado, é possível olhar retrospectivamente e refletir sobre a reflexão na ação. Após a aula, o professor pode pensar no que aconteceu, no que observou, no significado que lhe deu e na eventual adoção de outros sentidos. Refletir sobre a reflexão na ação é uma ação, uma observação, uma descrição, que exige o uso de palavras".

Relatório de Atividades da Classe - Documento reflexivo, o relatório diferencia-se do diário por ser como uma reflexão mais distanciada do trabalho da sala de aula. Não se trata mais de refletir sobre "aquela" aula, mas sim sobre o conjunto de ações que compõem as diversas situações de aprendizagem ou temas mais amplos. Para elaborá-lo, o professor conta com as anotações do diário, que agora serão "lapidadas". O relatório retrata a metodologia de trabalho do professor e tem a função de tornar-se objeto de discussão por parte de outros educadores, pais e colegas.

A elaboração do relatório permite ao professor o distanciamento necessário do seu fazer e a análise do trabalho que vem realizando. Ao rever o que foi feito, revela-se o que há por fazer. Avalia-se e, em função disso, replaneja-se.

Espaços de Reflexão Compartilhada - Na Escola da Vila são variados os espaços para o trabalho em equipe: desde reuniões pedagógicas até parcerias, que acabam acontecendo por conta de uma apresentação feita a outros educadores sobre determinado tema.

Ultimamente, e em função do crescimento da equipe, tornam-se cada vez mais necessárias a troca e a comunicação entre os professores. Nesse sentido, destacam-se duas iniciativas importantes.

A Escola da Vila realizou neste ano seu primeiro Simpósio Interno, que teve como objetivo a socialização dos trabalhos feitos pelos professores em sala de aula. Destinado a todos os profissionais da Escola, o evento revelou-se uma excelente oportunidade para o intercâmbio.

Desenvolvemos, também, investigações centradas no tema da Avaliação Educacional. Organizados em Grupos de Pesquisa, professores e orientadores de diferentes instituições trabalham sob a coordenação do Professor Lino de Macedo buscando a realização de avaliações cada vez mais formativas dentro do espaço escolar. Essa experiência tem sido muito significativa por aprofundar um de nossos dilemas da sala de aula, além de contextualizar o estudo através da ação, colocando-nos mais uma vez no papel de sujeitos da aprendizagem.


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