Revista Vila XXI  

Matemática


Compreendendo o mundo dos números

Na Escola da Vila, a Matemática nunca foi vista como um bicho de sete cabeças, mas sim como algo que também faz parte do cotidiano dos alunos

Vania Marincek

Já se foi o tempo em que as crianças faziam cara feia ao ouvir a palavra matemática. Aprender números começa como uma grande brincadeira na Escola da Vila. Na educação infantil, os alunos já se familiarizam com os números e as primeiras operações, através de muita brincadeira.

A preocupação em fazer da Matemática uma disciplina a ser compreendida pelos alunos desde o início da escolaridade vem desde a fundação da Escola da Vila, que sempre se preocupou em acompanhar os novos estudos e principalmente as novas propostas de ensino também nesta área.

Na época, essa era uma visão bastante inusitada para a grande maioria das pré-escolas, que se preocupavam apenas em ensinar os traços dos números.

Nessa primeira fase, a principal referência teórica usada pela Escola da Vila vinha das contribuições da psicologia genética de Piaget, que ajudava a entender como se dava o processo de construção de categorias do pensamento, fundamentais para a aprendizagem de determinados conceitos matemáticos.

O trabalho com as classes de crianças pequenas também sofreu influências das propostas de Constance Kamii, pesquisadora de formação piagetiana. Ela propunha que as situações do dia-a-dia em sala de aula colocassem, para as crianças, problemas em que necessitassem contar ou estabelecer relações entre quantidades.

O dia-a-dia das crianças em classe era organizado com propostas em que deveriam, por exemplo, se ocupar da distribuição de materiais (como lápis, folhas de papel…) ou alimentos (como balas, biscoitos…) e, com isso, solucionar os problemas advindos da complexidade de se estabelecerem correspondências, de se antecipar a quantidade de objetos e crianças.

Ensino fundamental - Quando a escola iniciou seu Ensino Fundamental, na época chamado de 1º grau, era bastante claro que não se desejava um ensino de matemática centrado na aprendizagem de procedimentos mecânicos, sem significado para os alunos.

Buscavam-se formas de trabalho com conteúdos que assegurassem que: os alunos aprendessem além da conta armada; soubessem operar mentalmente; conseguissem antecipar resultados; não se intimidassem frente aos problemas; e avançassem na compreensão dos conteúdos matemáticos mais complexos.

Nesse período, o trabalho sofreu influência de uma corrente da Educação Matemática segundo a qual uma parte do trabalho em sala de aula deveria girar em torno de situações nas quais os alunos representariam quantidades em bases diferentes do nosso sistema de numeração (que é decimal, organizado em grupos de 10), e operariam com essas quantidades. Isso era feito basicamente por meio de um jogo: "o jogo de regra de troca".

No final dos anos 80, novas contribuições vieram a ser incorporadas e redimensionaram o trabalho que vinha sendo desenvolvido. A Escola da Vila conheceu as propostas de Guy Brousseau, um dos principais representantes da Didática da Matemática, área de conhecimento autônoma, voltada para a pesquisa dos processos envolvidos no ensino da matemática, com o fim de garantir que a aprendizagem desta disciplina aconteça de fato.

Ele propõe que as situações para a sala de aula sejam minuciosamente planejadas para assegurar que os alunos aprendam a partir das interações que vão construindo durante a própria situação de aula. A aprendizagem acontece porque as situações são organizadas para que os alunos, por meio de suas ações, estabeleçam inúmeras relações e avancem em direção à compreensão do conteúdo que se deseja ensinar-lhes.

O contato com as pesquisas e propostas de Délia Lerner e Patrícia Sadowsky, pesquisadoras argentinas, que têm por referência a Didática da Matemática, foram fundamentais para que nos aproximássemos das propostas desta área.

A escola tem buscado incorporar à sua ação essas contribuições, planejando situações em que os alunos, ao longo do processo de resolução de situações-problema, antecipem e verifiquem resultados inúmeras vezes, formulem justificativas, argumentem, convençam e sejam convencidos. Acabam, assim, por construir um conhecimento contextualizado e que se opõe à seqüenciação escolar habitual, aquela em que só cabe ao aluno reproduzir o que lhe foi ensinado previamente pelo professor.


Volta à página inicial da Revista Vila XXI - Imprime essa Página