Revista Vila XXI  

Projetos


Os Projetos na Escola

Tecnologia didática a serviço da construção de conhecimentos

Débora Krolikowski S. Oller

Desde o nascimento com vocação para a vanguarda, a Escola da Vila inicia nos anos 80 sua história com os Projetos incorporando as revisões críticas ao movimento da Escola Nova. Quase 20 anos depois, vários são os projetos desenvolvidos em nossas salas de aula. A construção de conhecimento didático a partir da prática reflexiva dos professores e do intercâmbio com teóricos do campo da didática permitiram identificar as diferentes modalidades que podem ou devem assumir os projetos: centrados em uma disciplina, com integração de áreas, em torno de temas transversais, entre outras… Conhecer essas diferentes modalidades organizativas deve servir para compreendermos melhor o valor educativo que têm cada uma delas, e as razões que as justificam nos contextos em que podem ser aplicadas.

Discussões em torno da idéia de Projeto tomam lugar hoje, em qualquer discurso que tenha a ver com Educação. Há um certo "caldeirão" de terminologias: projetos de trabalho, projetos especiais, projetos didáticos… e um apego excessivo à conceitualizações excludentes. Sem faltar com o rigor, não seria exagero afirmar que não existe certo ou errado em termos de Projeto. Esta não parece ser uma questão de tudo ou nada! Na Escola da Vila, por exemplo, organizar situações de ensino/aprendizagem sob a forma de projeto é uma, entre outras, estratégia didática. Para outras experiências educativas, mais que uma estratégia, têm-se nos projetos de trabalho uma postura pedagógica, uma "porta de entrada" para uma pedagogia diferenciada.

Sem estabelecer valorações sobre as distintas modalidades de projetos ou concepção, interessa aqui o princípio original, denominador comum dessa prática: a potencialidade de gerar aprendizagens significativas.

As linhas gerais de um projeto - Um projeto se caracteriza e diferencia por propor um conjunto de situações de ensino/aprendizagem altamente contextualizadas, num processo de elaboração coletiva envolvendo alunos e professores. Trata-se de uma série de situações unificadas por uma finalidade conhecida e compartilhada pelo grupo classe. Um empreendimento que levará a elaboração de um produto final, como por exemplo a produção de uma revista, um recital, a construção de uma maquete, um relato científico, uma exposição, um evento…

Uma vez que o projeto é proposto e compartilhado pelos alunos com uma finalidade consciente para todos, planeja-se as situações para consegui-lo. Essas situações de ensino serão pensadas e planejadas para apoiar os alunos a enfrentar os desafios que a tarefa colocará. Transpor essas dificuldades significará o sucesso do empreendimento e também a construção dos novos conhecimentos. Isso significa que cada uma das situações de ensino que fazem parte de um projeto não são meros exercícios ou tarefas que os alunos têm de realizar para cumprir com a " obrigação escolar" . As atividades nas quais estarão envolvidos colocarão em jogo conteúdos funcionais e significativos pelo fato de não terem sido estabelecidos por necessidades alheias a própria realização do projeto.

A significatividade - Embora os projetos em suas linhas gerais de organização reunam as condições que potencialmente favorecem atividades significativas, esta característica não é e não deve ser exclusiva dessa estratégia didática. Provocativamente pode-se afirmar que uma aula expositiva pode vir a ser extremamente significativa para os alunos. Temos aqui uma confusão recorrente quando se fala de projeto: reducionismo do conceito de atividade significativa. Trabalhar a partir de temas que suscitam a curiosidade dos alunos, que conquistem seus interesses, tem sido, muitas vezes, as únicas justificativas sob as quais tem-se empregado esta estratégia. Nestes casos, os projetos aparecem, fundamentalmente, como um recurso para tornar o ensino mais prazeroso e interessante para os alunos. Muito bem. Mas o que dizer das aprendizagens daí decorrentes? Serão suficientes?

Tomar a significatividade apenas como sinônimo de "interesse" é reduzir as possibilidades dessa estratégia didática. Observar os princípios psicopedagógicos desse conceito na elaboração de projetos pode ser o meio capaz de promover a construção de conhecimentos "genuinamente significativos". Certamente será esse um dos caminhos a permitir que cada vez mais os alunos possam enriquecer suas estruturas de conhecimento com esquemas interpretativos suficientemente complexos para dar respostas aos problemas e situações que deverão resolver no mundo, fora da escola.

Os Projetos e as Didáticas Específicas

Alguns projetos podem se organizar em torno de uma só disciplina. Neste caso, os aportes das didáticas específicas norteiam todo o desenvolvimento do trabalho. Esta modalidade de projeto se distingue de outras por um maior controle da transposição didática.

Os projetos de Língua, por exemplo, partem sempre de uma problematização em torno de uma situação comunicativa real. Produzir um jornal, escrever um livro, a organização de um sarau literário… a produção de cartazes para uma campanha . Todas as etapas do projeto, do lançamento da idéia a concretização do "produto" (ou evento), tomam como referência as práticas sociais de leitura e escrita.

Colocados no papel de leitores e/ou escritores, os alunos têm, realmente, algo a "dizer" (comunicar) para "alguém" (seu interlocutor) realmente interessado. Cumprir os propósitos comunicativos do projeto significará, também, o cumprimento de uma série de propósitos didáticos: a apropriação do sistema de notação (pontuação, ortografia…); das características dos textos (gêneros discursivos, recursos gramaticais…) entre outros.

São esses postulados básicos que conferem e preservam o sentido e a natureza da leitura e da escrita como práticas sociais também dentro da escola.


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